Quatro araras-canindé (Ara ararauna) voltaram a sobrevoar o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, dois séculos depois de desaparecerem da região. A libertação faz parte de um programa de reintrodução conduzido pelo Refauna com apoio do ICMBio, que pretende repor funções ecológicas essenciais da Mata Atlântica.
Processo criterioso de selecção e aclimatação
Os quatro exemplares — um macho e três fêmeas provenientes do Refúgio das Aves, em Aparecida (São Paulo) — foram escolhidos entre 26 candidatos. A equipa avaliou saúde, musculatura, capacidade de voo e comportamento, exigindo aversão ao contacto humano para evitar aproximações perigosas após a soltura.
Desde o início de Junho, as aves permanecem num recinto de aclimatação dentro do parque. Durante este período, biólogos monitoram alimentação, socialização e voo. A libertação definitiva deverá ocorrer nos próximos meses, dependendo da adaptação observada.
Condições ecológicas favoráveis
Um levantamento identificou mais de 90 espécies vegetais capazes de fornecer alimento ao longo de todo o ano, factor determinante para a viabilidade do projecto. Para compensar a escassez de palmeiras adequadas à nidificação, foram instalados ninhos artificiais em pontos estratégicos da floresta.
Testes preliminares com ovos de galinha revelaram o macaco-prego como principal predador potencial. A equipa prevê instalar barreiras metálicas nos troncos para reduzir o risco, adoptando um modelo de gestão adaptativa que acompanha dados de campo em tempo real.
Imagem: canaldopet.ig.com.br
Importância para a recuperação da Mata Atlântica
Ao dispersarem sementes de grandes dimensões, as araras-canindé contribuem directamente para a regeneração da floresta. O objectivo do Refauna é estabelecer uma população reprodutiva estável, reduzindo gradualmente a necessidade de intervenção humana.
Responsáveis pelo parque reforçam o pedido de que visitantes mantenham distância das aves e não ofereçam alimento. A colaboração do público é considerada decisiva para o sucesso de uma iniciativa que pretende demonstrar que, mesmo num parque rodeado por área urbana, é possível reverter perdas faunísticas históricas através de ciência, gestão continuada e participação social.
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