Ondas de calor marinhas em expansão
Ondas de calor marinhas são eventos extremos em que a temperatura superficial do oceano ultrapassa o recorde histórico por, no mínimo, cinco dias consecutivos. Nas últimas décadas, esses episódios tornaram-se mais frequentes, prolongados e intensos, despertando preocupação internacional.
O monitoramento por satélites, iniciado no começo dos anos 1980, permite comparar valores diários com séries históricas. Quando o desvio ultrapassa o limite estatístico estabelecido, o episódio é classificado como onda de calor marinha.
Pesquisadores agrupam a gravidade em quatro categorias de intensidade. Além disso, analisam a duração e a velocidade de início para avaliar o potencial de impacto em diferentes regiões oceânicas.
Estudos conduzidos pela Universidade de Cádiz confirmam que a ocorrência do fenômeno cresce ano a ano. O aquecimento global é apontado como agente central, ao elevar a temperatura média da superfície marítima e reduzir as chances de resfriamento sazonal.
No Mar Mediterrâneo, trabalhos publicados na revista Frontiers in Marine Science compararam dois métodos de referência: um intervalo fixo (1982-2001) e uma linha de base móvel, sempre formada pelas duas décadas anteriores ao evento analisado.
Os autores defendem a adoção do indicador móvel para refletir novos recordes que surgem continuamente. Sem essa atualização, várias regiões poderiam entrar em estado permanente de onda de calor, dificultando a identificação de episódios realmente excepcionais.
Ondas de calor marinhas e seus impactos
Entre os fatores que deflagram o aumento de temperatura estão variações na força e na direção das correntes oceânicas. Essas mudanças transportam água aquecida para áreas antes mais frias, ampliando o alcance geográfico do fenômeno.
Sistemas de alta pressão sobre a superfície marítima também contribuem. Eles dificultam a mistura vertical da coluna d’água, retendo camadas quentes na superfície e prolongando a duração do evento.
No âmbito climático, o principal motor é o aquecimento global. Os oceanos absorvem a maior parte do excesso de calor presente na atmosfera, elevando gradualmente a temperatura superficial e aumentando a probabilidade de ondas de calor marinhas.
As consequências são extensas. Recifes de coral, que demandam faixas térmicas estreitas, sofrem branqueamento e mortalidade quando submetidos a calor prolongado. A perda desses ecossistemas reduz abrigos e alimento para diversas espécies.
A migração de peixes em busca de águas mais frias altera a composição de comunidades e afeta a pesca comercial. Regiões tradicionalmente abastecidas por determinadas espécies podem enfrentar escassez, prejudicando a renda de comunidades costeiras.
Os episódios também favorecem a multiplicação de algas nocivas, capazes de produzir toxinas letais para organismos marinhos e potencialmente perigosas à saúde humana. A proliferação dessas florações compromete a qualidade da água e o turismo.
Impactos indiretos incluem mudanças na cadeia alimentar, com repercussões para mamíferos, aves e répteis marinhos. A alteração na disponibilidade de presas pode desencadear declínios populacionais em níveis tróficos superiores.
Projeções apontam tendência de aumento contínuo na frequência, duração e intensidade das ondas de calor oceânicas. Caso não haja redução consistente nas emissões de gases de efeito estufa, cientistas alertam para a possibilidade de episódios mais severos e prolongados até meados do século.
Organizações de pesquisa trabalham no desenvolvimento de sistemas de alerta precoce, capazes de informar pescadores, gestores costeiros e unidades de conservação sobre a chegada de eventos extremos. A intenção é mitigar prejuízos econômicos e danos ambientais.
Especialistas ressaltam a necessidade de coordenação entre comunidades científicas, autoridades governamentais e setores produtivos. A integração de dados de satélite, boias oceanográficas e modelos climáticos é considerada fundamental para antecipar impactos e proteger a biodiversidade marinha.