Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina concluíram, por meio de sequenciamento genético, que a figueira centenária da Praça XV de Novembro, no Centro de Florianópolis, pertence à espécie Ficus microcarpa, nativa de regiões entre a Ásia tropical e a Austrália.
A árvore e sua origem
O estudo foi conduzido no laboratório de genética vegetal da instituição, onde fragmentos contendo genomas de cloroplastos foram extraídos de folhas do exemplar histórico.
O material passou por equipamento de alta tecnologia que leu milhares de bases do DNA, permitindo a comparação com registros de um banco global e confirmando a procedência estrangeira.
Segundo a equipe, a investigação reforça a interação entre ciência, patrimônio e memória urbana, já que o espécime é citado no hino do município e figura como um de seus principais pontos turísticos.
A presença da árvore na capital catarinense remonta a cerca de 1870, quando foi plantada nas proximidades da atual escadaria da Catedral Metropolitana.
Em 1891, aproximadamente vinte anos depois, a figueira foi transplantada para a Praça XV, onde desde então fornece sombra a pedestres e abriga celebrações comunitárias.
Ao longo de décadas, lendas sobre sorte e prosperidade associadas a caminhar ao redor do tronco reforçaram o caráter simbólico do vegetal para moradores e visitantes.
Para detalhar a origem botânica, os cientistas montaram o genoma como um quebra-cabeça, separando informações dos núcleos celulares, cloroplastos e mitocôndrias durante análises de bioinformática.
No organismo vegetal, o genoma nuclear responde pela maior parte das funções hereditárias, enquanto o cloroplasto garante a fotossíntese e o tom verde das folhas.
Já o genoma mitocondrial converte o açúcar produzido em energia, mecanismo essencial para a sobrevivência da espécie fora de seu habitat natural.
A árvore e sua preservação
Além do mapeamento genético, o grupo desenvolve um projeto de clonagem que busca perpetuar as características do exemplar original.
Brotações jovens foram selecionadas para cultura in vitro; até o momento, dois clones estão estabelecidos no laboratório, ainda em estágio inicial de crescimento.
O procedimento é considerado complexo para espécies arbóreas, pois exige protocolos específicos de desinfecção, nutrição e controle de ambiente.
Paralelamente, técnicos realizam diagnósticos fitossanitários, avaliando pragas, doenças e carências nutricionais que possam comprometer a vitalidade do monumento natural.
Tratamentos de adubação e manejo de solo estão programados para conclusão no primeiro semestre, com objetivo de prolongar a vida da figueira centenária.
Entre os desafios identificados, destacam-se a poluição veicular no entorno da praça e a baixa interação com outros organismos, típica de áreas urbanizadas.
Mesmo exposta a essas pressões, análises recentes indicam bom estado geral, favorecido por cuidados periódicos da prefeitura e de especialistas em arborização.
A perspectiva é que, com as intervenções previstas, a árvore continue integrando a paisagem do Centro de Florianópolis por muitos anos.
A pesquisa também contribui para a gestão de espécies exóticas na cidade, oferecendo subsídios técnicos para políticas de conservação e planejamento paisagístico.
Como a Ficus microcarpa ocorre em diferentes continentes, o mapeamento genético permite comparar variações populacionais e compreender adaptações a climas diversos.
Outro resultado esperado é a criação de um banco regional de dados genômicos, capaz de auxiliar futuros estudos sobre biodiversidade urbana e mudanças ambientais.
No âmbito cultural, a confirmação da origem asiática não reduz o valor simbólico da figueira, mas acrescenta um capítulo ao processo histórico de formação da capital catarinense.
O transporte de mudas estrangeiras para portos brasileiros no século XIX era comum, e a chegada do exemplar à ilha se insere nesse contexto de trocas botânicas globais.
Com o avanço do sequenciamento, a UFSC pretende ampliar investigações para outras árvores notáveis da cidade, visando mapear linhagens, identificar eventuais riscos e orientar estratégias de manejo.
Ao vincular genética, história e gestão ambiental, o trabalho evidencia o papel da ciência na preservação de marcos naturais que ajudam a definir a identidade de Florianópolis.